VOL. 01 - NOITE 01

O início, o frio e a Via Láctea


OBJETIVO: Testar toda a operção e observar a dinâmica do clima ao longo da noite

PONTOS DE ATENÇÃO: Risco de cabeça d'agua / solo extremamente liso

Primeira noite, teste geral para avaliar como seria a sequência de todo projeto, avaliação do preparo técnico e psicológico. Considerando as condições climáticas muito instáveis, decido iniciar pela Cachoeira dos Macacos de onde seria relativamente facil voltar,  se o tempo fechasse de vez, impossibilitando o trabalho.


18:20hs - Parto, então, para a Cachoeira, na parte baixa do Parque, descendo pelo cânion cerca de 1,5km da área de apoio. Não levo a barraca porque no local há uma cavidade sob as rochas onde posso me abrigar, se necessario. Ao chegar, realizo uma varredura, analisando as possíveis rotas e os ângulos exploráveis à noite.


19:15hs - Em pouco tempo, a escuridão toma a grande fenda na qual a cachoeira se encontra. Ao  escurecer completamente, sinto como se o lugar dissesse “- Está valendo! Pode começar!” Finalmente, após semanas visualizando o projeto tudo se tornava realidade com toda sua força.

20:00hs - Com os primeiros momentos de escuridão, as dificuldades aparecem. Antes de escurecer, decido posicionar a câmera em uma ponto difícil, para eliminá-lo primeiro- é muito próximo d'água e da mata fechada mas  a queda d'água fica bem valorizada deste ángulo. A alteração de temperatura que acompanha o cair da noite dissipa as nuvens e posso ver que a lua, então em quarto crescente, está logo acima da cachoeira, desfavorecendo a fotografia das estrelas daquele ponto, pela próximas duas horas, quando a Lua estaria bem baixa atrás do morro acima.

20:35hs - Afasto-me daquela posição para avaliar outros ângulos e, ao atravessar a água que escorre da cachoeira, inacreditavelmente, escorrego três vezes quase em sequência: em um delas, senti o pulso quase deslocar. Logo depois, deixo uma das lanternas cair na água, conseguindo, a custo, resgatá-la. Percebo, então, que não estou, ainda, em sincronismo com o lugar e com as dinâmicas necessárias para tudo correr bem. Esta percepcão me ajuda a concentrar-me, a respirar e a focar melhor, ficando claro para mim que, se não conseguisse me controlar, dificilmente sairia fisicamente ileso, ao final das várias noites seguintes.Com os instintos mais aguçados e a mente mais firme, decido levar o equipamento até a grande laje de pedra do outro lado da água, de onde teria varios ângulos, incluindo alguns com a lua às  minhas costas, iluminando a sequência do cânion.

21:00hs - Monto todo o equipamento, aproveitando a lua como uma grande fonte de luz e fotografo as primeiras timelpses, de costas paraa cachoeira. (ficaram muito escuras e não foram usados no vídeo final)

23:00hs - Apesar de, na prática, não haver produzido muito até ali, apresento sinais de cansaço fisico, mas animado por haver começado o trabalho, viro o equipamento em direção à cachoeira e  com  a Lua já  se pondo, finalmente, fotografo um timelapse da cachoeira que, infelizmente, não estava com grande volume de água. Mas para isso não havia remédio. Observar a cachoeira e seu entorno iluminados pelas lanternas, cercada por aquele breu é impressionantge. Ora parece um cenário pronto para um espetáculo, ora parece que estou alterando a dinâmica do lugar e mil olhos me observam. Em outros momentos, ainda, provavelmente por estar há tanto tempo com o estrondo da água nos ouvidos, tenho a impressão de ouvir murmúrios em meio ao ruído da cachoeira. Vai saber!?

00:30hs - Fotografo um timelapse da cavidade de pedra, tendo como pano de fundo  a Via-Láctea se movendo. É a primeira sequência em que capto a nossa galaxia, durante toda a viagem, devido ao clima chuvoso e instável. Impossível prever se haveria outra oportunidade como essa, então prossegui filmando a Via Láctea no quadro.

Terminada esta quarta sequência  bastante demorada, enquanto a câmera fotografa, quase exausto, apoio a cabeça na mochila pra descancar a musculatura, as costas e contemplar o céu, mas me desgastando muito com o frio. Instigado pela pressa para descer a trilha e chegar ao ponto antes de escurecer, acabo deixando o agasalho no carro. Agora são umas 2 da manhã, o frio atingindo os ossos, coloco uma toalha de rosto por dentro da camisa, cobrindo as costas e aliviando o sufuciente para seguir com o trabalho. Uma vez terminado, com o frio  insuportável, decido voltar sem pressa, "pescando" algumas sequências para que, ao amanhecer, já estar perto da base de apoio.

02:00hs - Vou caminhando e há uns 70 metros da cachoeira noto que há um ângulo com o céu muito limpo, podendo ver a Via-Láctea a olho nu. Deito em meio as árvores, no escuro. Próximo ao chão está mais quente e as plantas cortam o vento frio. Então,  armo o equipamento, enquadrando parte de uma árvore com a nossa galáxia ao fundo.

Esse momento que experimento, mais longe da cachoeira traz calma: a sensação é de estar completamente conectado com o lugar. Enquanto a câmera trabalha, descanso, contemplo aquele céu absurdo, me alimento.A sensação é indescritível.  Fotografo diversos ângulos até que, embora os olhos ainda percebam a mesma escuridão, a câmera, que trabalha em alta exposição, já capta a luz do sol nascendo as 4:30hs.


05:15hs - Começo o caminho de volta, bastante cansado : a subida do trecho final está pesada, sinto o equipamento nas costas e, principalmente, a ausencia de sono. Avanço fazendo pausas, viro uma lata de energetico e faço o último ataque.


06:45hs - Chego no carro, estacionado na base de apoio.


7:20hs - Deixo o Parque e volto para a pensão na Vila. Ao chegar, tomo um banho quente e me deito na cama, agradecendo  por estar ali inteiro e feliz pois o projeto havia começado, incluindo imagens do etorno de nossa casa- a Via Láctea!\

 

 

 

 

2017 © por Gustavo Massola