VOL. 01 - NOITE 04

 

Tempestades na montanha

OBJETIVO: Fotografar a clarabóia da Gruta e explorar a vista do Cruzeiro

PONTOS DE ATENÇÃO: Possíveis tempestades na altitude, risco de raios etc

 

Já tendo experienciado bastante da dinâmica do trabalho, decido fotografar a linda clarabóia da gruta da Cruz, próxima ao ponto mais alto do Parque -  o Pico da Lombada. Mentalizava a clarabóia semanas antes de partir e dela me lembrava constantemente durante os preparativos em São Paulo, me motivando bastante. A dificuldade aqui seria a distância das áreas de apoio e a permanência prolongada na altitude numa época de clima chuvoso.

15:40hs - Inicio a caminhada até o pico do Cruzeiro, a idéia é chegar com algum tempo de luz diurna para analisar as rotas e pontos que registrarei a noite, neste caso são particularmente espalhados.

18:00hs - Chego no Cruzeiro com sua bela e castigada Cruz, fazendo o reconhecimento da rota entre ela e a Gruta da Cruz,  onde me abrigarei em caso de tempestade.

18:40hs - Usando a Cruz como elemento central, fotografo timelapses de duas tempestades ao fundo. Neste momento, existem outras três massas chuvosas no meu campo de visão. Passo as próximas duas horas num misto de admirar o espetáculo,  acompanhando atentamente sua movimentação. Com o passar do tempo, este segundo comportamento se torna predominante pois percebo que, inexoravelmente, uma daquelas massas varreria o ponto onde eu me encontrava.

 

20:15hs - Terminada a captação de uma sequência, me concentro na observação de uma massa chuvosa já, agora, bem mais próxima, atrás do Pico da Lombada, 1.5km adiante. Uso tal referência como uma área de segurança, ainda vejo bem nítido o contorno do Pico, mas as nuvens se tornam densas e próximas de tal forma que fica bem mais escuro.Não  conseguindo perceber, visualmente, que direção seguem, armo a câmera e a deixo fotografando na alta exposição em que já estava configurada para ver, pelas fotos, a direção daquela água toda. Ao ver as fotos, decido ir para a Gruta e começo a demontar a barraca que nem havia fixado. Uns dois minutos depois olho na direção do Pico da Lombada e não vejo mais nada, percebendo que, em minutos, estarei dentro da nuvem. Olho para o alto e vejo uma escuridão densa, lá encima, dentro da massa, alguns raios iluminam internamente a gigante e me sinto bastante vulnerável. Mantenho a concentração e, por prioridade, fui desmontando e guardando o equipamento da melhor forma possível, a barraca, enrolo de qualquer jeito e enfio embaixo de uma pedra. Parto para a Gruta da Cruz.


21:20hs - Chego na gruta, acomodo tudo na areia fofa e seca e me sento com as costas na pedra, escutando o som da chuva que se aproxima. Fico um tempo na escuridão descansando, com os olhos fechados, respirando mais profundo, durante muitos minutos.

 

 

 

22:00hs - Sob a luz de uma lanterna, admiro aquela cena surreal, a clarabóia no topo da gruta, exibindo uma pequena queda d'água que forma um pequeno lago a minha frente, a água escorre pela boca da gruta do lado oposto, tornando meu lugar bem estavel. Agora, em meio a tantas variáveis, posso apenas contemplar relaxadamente, concluindo que, em minha posição anterior, a situaçãoatual deve estar terrível.

 

22:15hs - A chuva, agora uma tempestade forte, cria uma corrente de vento bem forte que sopra pra fora pela boca da gruta, fazendo com que a camada superficial de toda aquela areia fofa e as demais partículas leves ali dentro sejam  sugadas por essa corrente. Inicialmenteo fenômeno é apenas curioso, mas vai ganhando corpo e logo estou quase engasgando com aquilo. A cada piscada os olhos começam a arranhar e com uma toalha de rosto cobrindo nariz, boca e olhos, corro para a entrada da Gruta, mas só quase debaixo da chuva forte me livro daquela corrente. Felizmente, tal situação não dura muito, cerca de uns vinte minutos, para todo o material leve serexpelido para fora da gruta, voltando o ambiente a ser bastante estável e seguro.


22:40hs - Retorno para junto do equipamento todo coberto pelo material  suspenso, realizo uma limpeza e, finalmente, inicio o cumprimento de um dos principais objetivos da jornada, a sequência da Clarabóia. Ainda tenho toda a madrugada pela frente e já acuso desgaste fisico e mental. Tavez por isso,  demoro bastante tempo para, sem molhar a câmera, achar o ângulo satisfatório e, ao mesmo tempo, acertar a luz etc.

 

23:50hs - Armo uma segunda sequência da Clarabóia, com a fotografia mais fechada na sua abertura. Escutando uma chuva mais fraca lá fora, saio e subo o acesso na direção do descampado que domina a região, deixando a pequena mata que cerca a entrada da gruta. A visão é impressionante -  o céu está tomado por uma capa de nuvem densa, tingida de vinho resultado da densidade das nuvens com as luzes fracas oriundas das pequenas cidades,  a dezenas de quilômetros. Além do som das gotas nas folhas, predomina um profundo silêncio que  vem não  do vazio, mas da vastidão. Sim, esta forma de silêncio tem som. Sinto-me como qualquer pequeno animal  que por ali deixa sua toca, humilde, respeitoso e vigilante, após a tormenta. O céu já descarregou a maior parte da sua água e, tendo um bom tempo pela frente, penso que posso fotografar o lugar com estrelas ainda naquela noite. Retorno para a gruta.


00:45hs - A sequência da Claraboia está quase terminada, está bem frio agora, sinal de que o tempo pode estar abrindo. Vou até a entrada da gruta e vejo algumas estrelas no céu. A vontade é de correr para a cruz de onde a fotografia deve estar  espetacular, mas mantenho o sangue frio e refaço a sequência da Claraboia para possivelmente pegar estrelas além de sua abertura.

 

01:50hs - O tempo abrira completamente, está mais frio ainda e o céu coalhado de estrelas, confirmando o experienciado nas noites anteriores. Pelo menos aqui e nessas condições, o céu abre na alta madrugada! A aposta de subir neste ponto hoje não foi em vão! Mantenho, ainda, o sangue frio e fotografo uma sequência da entrada da gruta com as estrelas "passando"ao fundo, mais uma da série "tenho que fazer". Novamente o cansaço e uma certa ansiedade me fazem demorar para acertar a fotografia. Apesar de animado por ter os elementos ali por explorar, em um nível, acho que estou bastante detonado,pois depois de fotografar esta sequência toda percebo que não liguei o disparador da câmera, bem quando as coisas estão difíceis de fazer e talvez por causa disso falhei na atenção. Aqui, isto não é um bom sinal porque uma falha tão simples significa que posso vacilar em alguma outra coisa. Respiro, me concentro e refaço a sequência, mas não tem jeito, perdi uma hora da madrugada e das estrelas lá fora. Tenho que seguir em frente, com muita atenção.

03:40hs - Finalmente, termino a sequência da entrada da Gruta, seguindo para a Cruz e sua vista, o mais rápido possível, acelero o passo. A visão da Via Láctea está  absurda, posso explorá-la de várias formas mas, em menos de uma hora, a luz do sol vai começar a invadir as fotografias. Decido, então, por um ângulo clássico da cruz interagindo com a Via-láctea e, um pouco apressado, estudo algumas opções , decido por uma e disparo a sequência.

 

04:30hs - A galáxia já começa a ficar suprimida pela luz do Sol, contemplo e descanso por ali. Com a Luz chegando e, sem chuva por perto, relaxo bastante, dou uma cochilada no chão e,  sem pressa, vou arrumando tudo.


05:40hs - Inicio a descida de volta à base, fazendo pausas para fotografar pelo caminho, a luz combinada com a vista está incrivel e, apesar do cansaço, acabo fazendo realmente muitas fotos ao longo da volta.


08:10hs - Chego no carro e parto para a pensão. Missão do dia (noite) cumprida e inteiro!


 

2017 © por Gustavo Massola