VOL. 01 - NOITE 02

 

Sustos antes do contemplar


OBJETIVO: Fotografar o relevo integrado ao o céu e detalhes de árvores com slider

PONTOS DE ATENÇÃO: Preservar a parte física, ainda em adaptação

Por ser o início das incursões, não estou 100%: além de tensão na musculatura das costas, o corpo ainda não adaptao à inversão do sono e, ainda mais,  a ameaça constante de chuva torna injustificável procurar algo mais distante. Assim, decido explorar a área próxima à base de apoio que possui diversos elementos relevantes.

19:00hs - Fico na lanchonete da base de apoio do Parque, observando a evolução do tempo, encontro com o João Carlos, Chefe do Parque e ficamos conversando um bom tempo.

20:00hs - O tempo está mais firme,  despeço-me de João Carlos, pego todo o equipamento no carro e desço até uma área chamada Prainha, a apenas uns 200 metros da Base. Demoro bastante, buscando uma sequência boa, porém o tempo não melhora, chegando a garoar. A decisão de não ir para algum ponto mais remoto parece bem acertada.

22:00hs - Sentado no chão de pedra, na escuridão e em silêncio há bem mais de uma hora, bem mesclado ao entorno, vou captando uma sequência do paredão de pedra que beira a prainha. Como inúmeras vezes tem ocorrido, através de minha visão periférica, percebo um vulto mas, desta vez, em sequência percebo nitidamente algo realmente se deslocando. Está a minha direita, viro a cabeça, forço a vista no escuro e percebo novamente o movimento. Há, realmente, alguma coisa ali, vindo devagar.

Pela movimentação, percebo que é um felino: agora, vejo o focinho rente ao chão como que me farejando, move-se um pouco mais, ficando de lado e posso ver perfeitamente sua silhueta: é uma raposa bem grande, esguia, escura e com a cauda característica. Fica uns segundos titubeando, me estranhando como um OVNI, faz claramente um desvio por minha causa e some no mato atrás de mim, revelando o seu estado total e completamente selvagem. Pela direção que seguia, provavelmente queria chegar na água mais abaixo, o que deve ter feito num ponto mais afastado.


23:10hs - Após diversos periodos de garoa fina e de tempo bem fechado, dirijo-me até a beira da Prainha para fotografar a água mais de perto. Não me sentindo muito confortável ali, sigo em frente. Durante o tempo todo surgem ondas mentais de todo tipo, sons ou pensamentos que me deixam alerta, tenso ou ansioso e preciso, constantemente, repetir este exercício de separar de instinto ou intuição. Ignorando o desconforto, armo o tripé e começo o ajuste fino da câmera. Não registro com precisão o que vem primeiro, se um ruído ou algo assim mas a curva de desconforto aumenta subitamente e, na sequência, também não sei veio primeiro, sinto um cheiro diferente, de difícil descrição que me mandava sair dali e é o que faço, preocupado e  apressado de verdade.

O cheiro não era como o que sentira uma vez na Serra da Capivara, caminhando à noite com compadre Rogerio, aquele era claramente de mamífero, lembrando cheiro de jaula de zoo, mas  esse era mais uma mistura de seiva, de veneno, não sei, só sei que, em um segundo, estou fora dali e acabo não fotografando a Prainha de perto.

00:30hs - Tendo deixado a prainha e acomodado o equipamento em um outro ponto, saio com a lanterna, apressadamente, para pegar uma sequencia com galáxia, coisa rara nesta noite, procurando uma árvore que dê uma fotografia interessante. Afasto-me um pouco demais da mochila (quebrando uma regra fundamental : não "espalhar" o quipamento o equipamento), estou num ponto mais pra baixo do cânion, vejo uns flashes de lanterna no paredão à minha frente. A luz da lanterna bate na direção da mochila e penso que alguém está perto dela procurando o dono, isso num contexto em que não deveria ter nenhum ser humano por perto. Dou um flash com a lanterna na direção da mochila, para demonstrar minha presença a quem quer que ali estivesse. Corro no escuro e vejo que a luz não vem dali, a luz bate novamente no paredão e posso rastrear sua fonte: vem de trás de mim, lá de cima, do centro de apoio.  Agora, a luz varre todo o perímetro mas não chega até mim, dou um flash em sua direção da luz como um cumprimento.  Então, a luz vem em minha direção, mas pego a mochila e começo a voltar para onde está a câmera disparando a sequência da árvore.

A pessoa fica um tempo "me" procurando, mas já estou mergulhado na escuridão em meio as árvores e rochas, monitorando o equipamento. A luz cessa e fica claro que aquele com a lanterna é o rapaz que dorme no centro de apoio que estava dando uma olhada em volta antes de se recolher, porque logo depois tudo por ali se apaga.

02:50hs - Depois de alguns sustos, muito vento, chuva e movimentos intensos pela área toda, vem a recompensa. Havia insistido por ali porque estava aprendendo com o lugar-  por mais que o tempo esteja fechado, lá pelas 3 da manhã a temperatura cai e o tempo abre. Não dá outra, a Viá Láctea se descortina de uma forma absurda sobre minha cabeça! Paro num lugar em meio a arvores baixas e faço duas sequências que estavam emminha mente, apenas aguardando a oportunidade para se concretizarem. Mais uma com  detalhe de árvore com nossa galáxia ao fundo e uma com o Parque na linha do horizonte, interagindo com a Via Láctea. Desta vez, enquanto a máquina fotografa, contemplo realmente  por muito tempo o céu, o lugar, respiro, silenciando a mente e, por alguns momentos, percebo de uma forma profunda a verdade que esquecemos- estou plantado no planeta, olhando o seu entorno imenso e sinto visceralmente, da maneira mais intensa, que ali está a essencia do que estou fazendo, captando, interagindo e sentindo o aspecto primordial da natureza, dos elementos e do cosmos, algo de difícil descrição.

04:30hs - De maneira bastante sincrônica, terminada esta sequencia generosamente beneficiada pelos elementos, o tempo fecha drasticamente e uma garoa fina e gelada tem início por toda parte. Sinto que  já tinha na memória da câmera e da mente o que buscara naquela noite e parto.


05:25hs - Chego na pensão, foi uma imersão muito proveitosa! Obrigado, Universo!


 



 

2017 © por Gustavo Massola